
Eu hei-de sempre fugir do mar e voltar à praia. E levarei sempre no bolso um sonho resgatado na areia, porque o mar mata-os e deposita-os no areal, mas eu ouço-os ainda a contar histórias de paixão, de terra e mar.
O coleccionar tinha medo do mar, mas amava búzios. Todas as
manhãs procurava o mais perfeito. O mais redondo, de tonalidade mais forte, o maior e mais reluzente. E eles douravam à luz do sol, exibindo as suas formas e contando-lhe o seu silêncio. Todas as manhãs ele escolhia um. Era sempre a mesma rotina. Pegava nele na palma da mão e olhava-o em todos os ângulos e visões. Enquanto o fazia, certificava-se de que se mantinha longe do mar. E até quando o guardava no bolsinho das calças, onde ficava esquecido até ao cair da noite, olhava para os pés para ter a certeza de que o mar não lhe tocava. Mas quando a noite descia do céu e as estrelas lhe batiam à janela, já o búzio estava na prateleira juntamente com tantos outros. Ele fechava os olhos e ignorava o chamamento das estrelas solteiras, que ousavam entrar mesmo assim e lhe invadiam o sono. Não o deixavam dormir, não o deixavam esquecer o escritório medonho, os clientes antipáticos, os papéis infinitos e o trabalho penoso. As estrelas querem sempre dançar com os búzios quando chega a noite, envolvendo-os com a sua luz, como se quisessem conhecer um pedaço do mar que se deixa apenas aconchegar pelas rochas e pelas areias. As estrelas são meninas que amam o mar e o admiram do céu, incapazes de o tocar. Por isso amam também os búzios quando chega a noite – porque acreditam deveras que eles são filhos pródigos do mar. Mas o coleccionar de búzios sabe que eles são incapazes de substituir a saudade das estrelas pelo mar, porque esses são também incapazes de substituir o medo dele e de o deixar partir. Era assim que o coleccionador do mar odiava o mar e amava os búzios. Odiava o mar porque esse o chamava todas as manhãs às mesmas areias e nunca lhe dava o búzio dourado que procurava. Quando o sol se vai, as estrelas não são capazes de disfarçar o falso brilho dos búzios. E o coleccionador, que acreditara no brilho que o mar lhe oferecia, amava já os seus búzios. Todas as noites isto. A ilusão do búzio dourado que de dourado pouco tinha. O choro do coleccionador na almofada. As estrelas que dançam. O amor das estrelas pelo mar saciado ..
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